08/02/2010
O BODYBUILDING BRAZIL contatou atletas brasileiros que moram e competem fora do país e realizou algumas entrevistas.
Como disse o atleta Edson Souza, “procure um novo paradoxo, e você mudará seu paradigma”. Às vezes, nada melhor do que a opinião de alguém que está lá fora para entendermos melhor o que acontece aqui dentro, para, na medida do possível, mudarmos alguns conceitos. Movido por algumas questões e dúvidas, o BODYBUILDING BRAZIL contatou atletas brasileiros que moram e competem fora do país e realizou algumas entrevistas. O que, inicialmente, era para ser apenas um painel do que acontece em outras terras, acabou revelando questões bastante interessantes. Confira a segunda parte da série “BRASILEIROS NO EXTERIOR”, com a atleta brasileira MARIZA HOFER.
I- ANDRÉ BUENO
BBBrazil: Você saiu do país por causa do fisiculturismo ou por outro motivo?
ANDRÉ BUENO: Saí para estudar.
BBBrazil: Há quanto tempo você mora no exterior?
ANDRÉ BUENO: Há 3 anos.
BBBrazil: Em que cidade e país você mora?
ANDRÉ BUENO: Los Angeles, Califórnia, EUA.
BBBrazil: Já competia no Brasil antes?
ANDRÉ BUENO: Sim.
BBBrazil: Diga um pouco sobre sua carreira no Brasil.
ANDRÉ BUENO: Competi pela primeira vez no Campeonato Pepê Apollo Classic. Foi
uma experiência tremenda, pois aprendi as poses e conheci muita gente bacana...
BBBrazil: O que você encontrou de diferente no fisiculturismo fora do Brasil? Pra melhor e pra pior.
ANDRÉ BUENO: No Brasil, a competição é mais tranqüila, e os atletas não são tão metidos. (Risos). Mas nos EUA, o bicho pega MESMO.
BBBrazil: Há diferenças no nível de treinamento? Quais?
ANDRÉ BUENO: MUITAS diferenças! Em cada competição, os juízes querem que você apresente algum progresso. Então, você tem que treinar cada ano mais duro, mais pesado, com mais forma e mais concentração.
BBBrazil: Há diferenças no nível de suplementação e alimentação? Quais?
ANDRÉ BUENO: Demais. No meu primeiro ano, tentei competir sem um nutricionista, baseando-me na minha própria capacidade. Me ferrei. Fiquei em 5º no Campeonato Estadual. No ano seguinte, treinei mais duro e paguei para um nutricionista me acompanhar com uma dieta e tal... Ganhei o Estadual e fui ao Campeonato Americano, ficando em 3º lugar na Categoria de acima de 90kgs. Eu tinha 19 anos, e foi o meu último ano como adolescente...
BBBrazil: Há diferença no nível dos campeonatos? Maior quantidade? Maior qualidade? Melhores premiações?
ANDRÉ BUENO: A qualidade é enorme e os atletas são cada vez mais sofisticados, a cada nível que você sobe. No Campeonato Nacional, havia muitos adolescentes com excelente qualidade... Os meus amigos da Categoria entre 80-90 kg tinham glúteos traçados e percentual de gordura de 1 a 2%...
BBBrazil: Como é a vida de um fisiculturista no país onde você vive agora?
ANDRÉ BUENO: É interessante, pois o fisiculturismo nos EUA é uma tribo. Nós convivemos de um modo bem interessante, porque, em todos os eventos, geralmente, vemos as mesmas pessoas.
BBBrazil: Você acompanha o esporte no Brasil?
ANDRÉ BUENO: Mais ou menos... Conheço o Pepê Apollo, o Fernando Maradona e o Popó. Mas não existe muita noticia do esporte brasileiro no exterior.
BBBrazil: O que mudou no fisiculturismo brasileiro (pra pior e pra melhor) desde que você deixou o país?
ANDRÉ BUENO: Não tenho muita idéia. Sei que tem muitos atletas competindo aqui nos EUA hoje em dia. O Eduardo Correa esta mandando bem, e estou contente com o progresso que ele fez nos últimos 3 anos...
BBBrazil: É fácil ser um atleta estrangeiro em outro país? Por que?
ANDRÉ BUENO: Não, porque existe o favoritismo. Mas, de um certo modo, o povo americano ADORA a galera Brasileira. A mulherada também! (Risos)
BBBrazil: Quais os seus títulos aí fora?
ANDRÉ BUENO:
2007 - NPC Jr. California - 3º lugar (Cat. Teen), 5º lugar (Cat. Collegiate menos de 70kg)
2008 - NPC Jr. California - 1º lugar (Cat. Teen), Overall (Cat. Collegiate), Muscle Beach Classic - 1º lugar (Cat. Teen), NPC California - 2º lugar (Cat. Teen), GNC Teen Nationals - 3º lugar (Cat. +90kg)
2009 - NPC Los Angeles Estreantes - 4º lugar (Cat. 90kg)
BBBrazil: Quais os seus planos para o futuro?
ANDRÉ BUENO: Terminar os estudos e me tornar um IFBB Profissional. Espero voltar ao Brasil e morar em Belo Horizonte de novo... Sinto saudade da minha família, do “Pé Descalço” e do povo mineiro. Sinto falta de meus amigos e - o mais importante - do CALOR Brasileiro! Sinto saudades também do carnaval, das férias de julho e de todas as festividades que curti em Piúma, Espírito Santo (onde eu morei por 3 anos). Foi BOM DEMAIS!
BBBrazil: O que você não sente falta do Brasil?
ANDRÉ BUENO: Da corrupção do governo e da falta de apoio que o atleta tem no país. Aqui nos EUA, eu compro filé de peito de frango a preço de banana, mesmo consumindo mais de 15kg por semana. No Brasil - pelo menos onde eu morava - o preço nunca mudava e eu continuava pagando caro...
BBBrazil: Baseado em suas experiências no exterior, quais dicas você daria para o bodybuilding melhorar no Brasil? ANDRÉ BUENO: Focar na alimentação e entender que o esporte é caro MEEEEEEEEEEEESMO. Eu estou competindo hoje em dia com adultos de todas as idades: gasto 15 dólares por dia em comida, fora o que gasto em suplementos. O mais importante é que a galera tem que entender que o físico não é construído em um só dia. Demora tempo. No meu caso, estou treinando há cinco anos, mas só tenho 2 anos de experiência de verdade. Isso é para mostrar aos adolescentes que os atletas que eles vêem nas revistas chegaram a esse ponto por sua persistência e determinação de serem os melhores. Quanto mais focado o atleta vive nesse esporte/modo de vida, mais o seu físico muda. Mas isso é só com o TEMPO. E o mais importante: MASSA MAGRA e PESO são duas coisas completamente diferentes. E, finalmente, fisiculturismo é o esporte/modo de vida da ILUSÃO dos músculos. NÃO é como o halterofilismo. Não importa QUANTO você pega no supino reto, mas SIM qual qualidade você obtém de cada exercício. Antigamente, eu treinava com 190kg no supino; hoje em dia, treino com 100kg, com a resistência suficiente para desenvolver o meu peito...

II - MARIZA HOFER
BBBrazil: Você saiu do país por causa do fisiculturismo ou por outro motivo?
MARIZA: Saí, primeiro, porque queria uma vida melhor e para construir família aqui. Passei férias na Europa e vi como eles eram bem mais organizados socio-economicamente e culturalmente. Concluí que aqui eu iria progredir, como, de fato, vem acontecendo.
BBBrazil: Há quanto tempo você mora no exterior?
MARIZA: Há 8 anos!
BBBrazil: Em que cidade e país você mora?
MARIZA: Em Zurique, na Suíça.
BBBrazil: Já competia no Brasil antes?
MARIZA: Nunca, mas tinha vontade. Infelizmente, vivi no meu país somente até os 18 anos, e não tive muita história aí. Terminei meu segundo grau em colégio particular (que eu mesma paguei, pois cresci com meus avós, aposentados e pobrezinhos) e, assim que juntei uma grana, me inscrevi nos Colégios Wakigawa, em Copacabana, e meti a cara nos estudos por 2 anos! Estudei inglês em casa sozinha, e, como havia passado 6 meses na Espanha, já falava e escrevia fluentemente o espanhol. Retornei a Europa, mas dessa vez para a Alemanha, pois havia tido, no Brasil, por 3 anos, um namorado alemão, e sempre tive curiosidade de conhecer aquele país. Lá, fiz cursos na área de Educação Física, como Cooperadora de Academia, Personal Trainer, Spinning e Body Pump (tudo por uma Escola Internacional de Fitness e Aerobics, a SAFS). Trabalhei por um ano e meio, e, com a grana que juntei, fiz, por 8 meses, um curso de Manicure Designer e abri um salãozinho para mim no bairro onde vivo. Nas horas vagas, sou manicure designer de unhas de gel européias! E vou vivendo como atleta (com um dinheiro que não me proprociona ir ao Brasil tão cedo) mas que basta para bancar meu esporte e pagar minhas contas aqui, no país que tem os impostos mais caros da Europa!
BBBrazil: O que você encontrou de diferente no fisiculturismo fora do Brasil? Pra melhor e pra pior.
MARIZA: Aqui eles usam mais ciência, sabem o que estão fazendo. E são justos, mas muito exigentes! De melhor? Aqui não tem pistolão certo: você pode vir da Etiópia; se você merecer, receberá o valor devido e as pessoas te respeitarão. Quanto à remuneração, é mixaria ou quase nada, assim como no Brasil (nesse esporte, só ganham os melhores dos melhores, e quem participa de muitos Grand Prix e campeonatos com premiações em dinheiro). MAS A CONCORRÊNCIA É GRANDE E A GALERA É FERA!!!
BBBrazil: Há diferenças no nível de treinamento? Quais?
MARIZA: Às vezes! Claro que os europeus estão anos à frente dos latino-americanos em termos de ciência, sendo experts, inclusive, no que se refere ao assunto de quando e quanto deve-se fazer (ou não) uso de hormônios!!! Isso acontece principalmente no caso de mulheres, que, nem chegam a participar de um Campeonato Mundial, e já estão masculinizadas, perdendo seu carísma por conta disso!
BBBrazil: Há diferenças no nível de suplementação e alimentação? Quais?
MARIZA: Claro! Aqui você tem mais opções. Mas o Brasil não deixa a desejar, já que uma boa alimentação não depende de alimentos processados, e sim de carnes, legumes, cereais, frutas. Tudo isso nós temos no Brasil quase de graça, e com qualidade bem melhor que aqui. No entanto, se você quiser suplementar, aqui você encontra mais barato.
BBBrazil: Há diferença no nível dos campeonatos? Maior quantidade? Maior qualidade? Melhores premiações?
MARIZA: As premiações são melhores, é claro, mas nem todo ano um Nacional na Suiça vale dinheiro; no máximo, você consegue qualificação pro Europeu. Qualidade? Sim, claro... Os caras são grandes e as mulheres são rasgadas, PORÉM, BEM MAIS FEMININAS: são poucas as que fazem uso de androgênicos! Isso é qualidade, é o que o público quer ver no palco! Em termos de quantidade, acho que é como no aí, que também tem atletas espetaculares!!!
E, sem dúvida, os campeonatos no meu Brasil têm muito mais calor! ;)
BBBrazil: Como é a vida de um fisiculturista no país onde você vive agora?
MARIZA: Fisiculturísta não é tão apreciado na Suiça, pois a sociedade daqui é composta de gente de universidade e escritório, executivos e patricinhas, magrelas ou obesas rs. Mas sim, existem raras pessoas que gostam e que lotam os estádios, nem que seja para criticar!
BBBrazil: Você acompanha o esporte no Brasil?
MARIZA: Sim, e tenho orgulho dos brasucas! Fico vibrando aqui sozinha com os meus botões!
BBBrazil: O que mudou no fisiculturismo brasileiro (pra pior e pra melhor) desde que você deixou o país?
MARIZA: O Brasil tem o melhor time de atletas do mundo! Estão cada vez melhores. Pena que a grana é curta, senão teria mais qualidade que quantidade!
BBBrazil: É fácil ser um atleta estrangeiro em outro país? Por que?
MARIZA: Claro que não! Existe muita inveja também... Você tem que se virar sozinho! E a as pessoas aqui precisam de tempo para acreditar que você está levando o seu esporte a sério!
BBBrazil: Quais os seus planos para o futuro?
MARIZA: Gostaria de tentar viver novamente no Brasil, um dia, mas com condições de viver aí, e com uma casinha própria perto de alguma praia.
BBBrazil: O que você mais sente falta do Brasil?
MARIZA: Amigos, comida, Copacabana, Ipanema, malhar na Neves Gym (minha primeira academia), comer rosquinha e café com leite na Constante Ramos antes de atravessar para a praia,
voltar da praia comprando banana-maçã no camelô em frente à academia, comer feijão com arroz, pegar o telefone e escolher quem eu iria dar uns beijos numa noite quente com aquela lua amarela que eu só vejo aí... Gente como a minha gente não existe!
BBBrazil: O que você não sente falta do Brasil?
MARIZA: O que eu não sinto falta não importa, e sim o que eu sinto falta, o que me vem na lembrança! ;)
BBBrazil: Baseando-se em suas experiências no exterior, quais dicas você daria para o bodybuilding melhorar no Brasil?
MARIZA: Continuem assim, porque vocês vão continuar causando inveja na galera que tem grana mas não tem carisma e talento pra coisa. E, por favor, atentem para que as mulheres parem de se masculinizar, pois atletas Body Fitness e Fitness não precisam de androgênicos!
Precisam comer correto e malhar pesado! O público tem que estar apto a saber identificar o que é mulher e o que é homem ;)
BBBrazil: Gostaria de acrescentar mais alguma coisa?
MARIZA: Agradeço a paciência de vocês terem lido até aqui. Lembrem-se: ninguém é perfeito. Estamos todos procurando melhorar, e não existe derrota que destrua quem nasceu para ser vencedor! Obrigada, um abraço, e que Deus esteja no meio de nós!
CONFIRA O PERFIL DE MARIZA HOFER NO BODYBUILDING BRAZIL